Habemus What If…? | Será o Destino ou o Livre-Arbítrio?

Habemus What If…? | Será o Destino ou o Livre-Arbítrio?

17 de setembro de 2021 0 Por Vinicius De Lacerda

A série What If…? é uma daquelas coisas que, sinceramente, você não espera acabar para tentar entender como começou. Ou melhor, quando e “se” começou. Parece confuso, mas com o passar do tempo (se é que existe), inevitavelmente, buscamos pela nossa essência, nossa origem, quem realmente somos. Em outras palavras, qual a parcela do destino ou do livre-arbítrio em nossas escolhas pessoais?

A série foi uma sacada certeira da Marvel, no sentido de, primeiramente, explorar as inúmeras possibilidades do que poderia ser, porém não foi (ou o que poderia ter sido). Segundo que, por mais difícil de aceitar do que pareça, existe uma natureza, um propósito, uma alma dentro de nós, que conduz para o que verdadeiramente somos.

Apesar de tanta energia psíquica empregada numa vontade, o instinto às vezes fala mais alto, e trilha um caminho talvez já escolhido sem que a própria consciência se dê conta. Enfim, a série nem acabou e já despertou infinitas vontades de escrever.

Leia Mais: Esquadrão Suicida é uma Paródia Hiper-realista da Realidade?

Destinos “Paralelos”

Imagine que um personagem já conhecido ou famoso, de repente, tem um outra jornada traçada por meio de uma nova narrativa. Além disso, um cenário bem conhecido e familiar, mas que move as peças numa nova jogada, tal qual um jogo de xadrez. Em suma, essa é a premissa da série What If…?: temos a falsa certeza de que já vimos aquela cena ou aquela pessoa antes, fazendo coisas e escolhas parecidas, porém de uma maneira diferente e com resultados mais ou menos distintos. As palavras-chave aqui são memória afetiva e desapego.

série What If...?

O Vigia. Disponível em: Canaltech. Divulgação What If… @Disney.

Assim, a cada novo episódio, narrado pelo Vigia (uma espécie de narrador consciente), o espectador é convidado a encarar um novo lado, uma nova probabilidade dentre as infinitas que o universo (ou multiverso) pode oferecer. Entretanto, não se engane: nada é exatamente o que se mostra, apesar do rio sempre encontrar o caminho do mar.

Dessa maneira, alguns personagens ganham diferentes ou inéditos protagonismos; outros, como em qualquer jogo de dados, apostam tudo e decidem fazer o que precisa ser feito. Ao final, por enquanto, tudo se encaminha para a nova/velha sobreposição de narrativas.

“Seu destino é determinado por sua natureza, ou pela natureza do seu mundo?”

O Vigia.

Confira Os principais easter eggs do sexto episódio de What If…?

Jung e o Livre-Arbítrio

Para variar, Jung correu para que a gente caminhasse. Ele nos mostra, por meio da Psicologia Analítica, que todos são vítimas e guiados por seus inconscientes (sejam pessoais ou coletivos) e isso é uma eterna roda de repetições. A consciência, ao contrário, é finita, filha e escrava do tempo e espaço, que não são nada lineares ou únicos.

Ademais, nos apresenta uma importante reflexão: tudo, absolutamente tudo na vida é feito de contrários, de opostos, a famosa alteridade. São as antinomias: para cada luz, há uma sombra correspondente; para cada boa ação, uma tentativa de inércia e mau uso do poder; para cada ser que se autorrealiza, um que se mantém na normose.

Além disso, o grande psicólogo do século XX nos deixou outra lição fundamental: cada Self – o Si-Mesmo – (a nossa verdadeira essência) pertence a algo maior, a uma continuidade que supera a compreensão humana. Significa dizer que é melhor deixar o fluxo seguir naturalmente, sem interferências, sem muitas repressões ou tentativas de bloqueio.

Versões Alternativas, Mesmos Propósitos

Na série, é muito claro observar essa reflexão acerca das diferentes “versões”: ao invés de Steve Rogers, Peggy Carter se torna a heroína que acaba com a guerra, apesar de ainda sofrer com o machismo estrutural. T’Challa, filho de Wakanda, é escolhido (por acaso?) para se tornar o Senhor das Estrelas, mas seu destino continua atrelado ao passado e à infância.

O titã louco segue com sua sina de defender o indefensável, porém, desta vez, apenas como uma ideia persistente. Wanda e Visão estão conectados para sempre e o peso do luto faz com que ambos não consigam se desapegar um do outro. Mexer com o reino quântico pode ser a saída, ou pode se tornar o inferno para uma perda irreparável. E o Dr. Estranho? A linha tênue entre bem e mal parece ser invisível, principalmente quando estamos obcecados pelo poder.

As diferentes linhas do tempo mostram alternativas para as histórias já contadas, mas a essência de cada personagem parece ser eterna. Os ditos “ponto absoluto” que não podem ser alterados. Desse modo, como num grande teatro, a vida se encarrega de nos oferecer vários papéis para interpretarmos, mas, em algum momento, vamos encontrar o nosso protagonismo e a obra-prima na qual imprimiremos a nossa marca.

Liberdade ou Linha Temporal?

Bom, não me arriscaria a dizer se uma coisa ou outra, talvez uma coisa e outra; uma coisa depois a outra; uma coisa, se a outra. A inútil tentativa de fugir de nós mesmos é a mais antiga das estratégias dos seres humanos. Porém, quem realmente se dispõe a assumir a bronca de seu mundo interior, com suas coerências e incoerências, virtudes e defeitos, expansões e retrações? Mais fácil (porém, não menos complicado) compreender o que cada chama interna nos convida a experimentar.

Enfim, que tal usarmos nossa energia vital no percurso e na busca pelo desconhecido, mas sem deixar de ouvir a Grande Voz Interna

Vinícius de Lacerda é formado em Letras e professor de língua portuguesa. Atualmente, é pós-graduando em Psicologia Junguiana, poeta, compositor, redator e entusiasta da Cultura Pop.