
Crítica O Afinador transforma o som em seu maior trunfo
No meio de lançamentos super esperados como Dia D e Toy Story 5, temos O Afinador. Um filme que me chamou a atenção de cara por focar em alguém que geralmente não pensamos. Muita gente é doida para aprender a tocar piano, mas quem os afina? Essa é a profissão de Niki (Leo Woodall, The White Lotus), um jovem com ouvido absoluto e hiperacusia — uma condição que provoca uma sensibilidade exagerada a sons comuns.
Dito isso, O Afinador parte de uma premissa interessante: o que fazer quando o que te define como pessoa se torna sua maior maldição? Niki, que cresceu como um prodígio do piano, já não toca mais. Tudo por conta da sua condição. A única forma dele sobreviver em um mundo tão barulhento é dependendo de um abafador de ruídos. Sua única companhia, pelo menos no início do filme, é seu mentor Harry Horowitz (Dustin Hoffman), dono da empresa que ele afina pianos, e quem deu um propósito à sua vida depois dele ter que parar de tocar.
Até aí a história vai bem, mas a vida de Niki tem uma virada quando ele descobre que seu dom pode ser usado para descobrir senhas de cofres. Então, motivado a ajudar a pagar as despesas médicas do seu mentor, ele acaba se envolvendo com um grupo de ladrões. O trato é simples: ele ajuda os criminosos a abrir cofres e recebe parte do valor do roubo.
Embora a ideia seja chamativa, e o filme seja ótimo em muitos aspectos, essa tentativa de se tornar um drama e um thriller ao mesmo tempo é o que tira um pouco o brilho da proposta, que tem seu auge quando foca nos seus personagens e nas suas sensações.
Entendi, mas vale a pena assistir?
Com certeza! Ainda que toda parte do thriller soe um tanto previsível, tanto a parte dramática quanto técnica fazem valer a pena a experiência. Dirigido por Daniel Roher (Navalny), O Afinador tem uma preocupação muito grande de entregar um filme que constrói as sensações do protagonista via som.
Não só assistimos, mas experimentamos sua condição. Seja para entendermos seu desconforto com sons mais estridentes, como aviões e sirenes, ou como ele lê o mundo a partir dessa audição mais abafada. Tanto afinando pianos ou colaborando com a namorada tocando, é possível realmente sentir como deve ser para ele viver nesse mundo.
Esse é definitivamente o ápice do longa, mas não é a única coisa que merece destaque. A montagem, em especial, dá ao filme um ritmo muito fluido e gostoso, quase como em beats musicais. Vemos a história ganhar velocidade ou não de acordo com a necessidade do momento.
Completando tudo, temos personagens e um elenco que, no geral, casam muito bem tanto entre si quanto no enredo. Isso se dá pela forma natural como são introduzidos. A presença de diálogos expositivos, muito bem posicionados, também ajuda nesse desenvolvimento, raramente comprometendo a parte dramática e cumprindo bem seu propósito.
Vale destacar também o senso de humor, muito presente na primeira parte do filme. Esses momentos são os primeiros a despertar nosso interesse. Leo Woodall e Dustin Hoffman têm uma química inegável, muito bem trabalhada por um roteiro estruturado que explora bem a relação aprendiz e chefe.
O relacionamento dos dois é recheado de momentos engraçados graças à personalidade arisca e honesta do personagem de Dustin Hoffman. Esses momentos são essenciais para entendermos o que faz Niki decidir seguir pelo caminho da ilegalidade.
Se tudo é tão bom, qual é o problema de O Afinador?

Embora a montagem mantenha um ritmo fluido, algumas relações e conflitos acabam recebendo menos desenvolvimento do que mereciam. Isso faz com que algumas coisas soem apressadas e pouco impactantes, como o relacionamento amoroso dele, que convence, mas poderia convencer mais. Ou toda a trama de roubos, que se prende a estereótipos e clichês, e se mostra mais do mesmo que já vimos em outros filmes.
Consequentemente, o terceiro ato acaba se tornando a pior parte, nele a história foca no desfecho de toda essa parte do thriller, o que faz o longa perder a força. Em um momento em que queremos mais do que tudo ver as reações do personagem principal e entender os impactos na sua vida pessoal. Ficamos presos a um enredo de ação, que apesar de ter função narrativa, não consegue causar a tensão que deveria.
Dito isso, se o seu chamariz foi justamente essa parte, talvez você se decepcione, mas agora, se está mais ansioso pela experiência sonora, você não vai se decepcionar.
Ainda assim, o final, apesar de curtinho, retoma a essência do personagem e faz com que a gente termine de assistir com uma sensação muito boa, apesar dos tropeços da parte mais voltada para a ação.
O Afinador está em cartaz nos cinemas brasileiros.