
Crítica | Toy Story 5 discute tecnologia e amadurecimento
Turners, quem cresceu no começo dos anos 2000 e não tem um carinho especial por Toy Story? Eu certamente tenho. Tanto que um dos momentos mais emocionantes da minha adolescência foi ser chamada pelo Woody e pelo Buzz para tirar uma foto na Disney. Mas não é só de nostalgia e memória afetiva que o cinema é feito. Então, por mais difícil que seja quando falamos de uma franquia tão importante para tanta gente, tentei fazer uma análise o mais imparcial possível de Toy Story 5.
E a verdade é que Toy Story 5 torna essa tarefa mais fácil do que eu imaginava. Depois de décadas emocionando diferentes gerações, a franquia retorna com uma proposta ousada. Em vez de apenas revisitar personagens queridos, o filme utiliza sua nostalgia para discutir um tema extremamente atual: o impacto da tecnologia e das telas na infância contemporânea.
A nova aventura coloca Bonnie e seus brinquedos diante de uma realidade familiar para muitas famílias. Crianças cada vez mais conectadas, com dificuldade de socialização e o desafio de encontrar um equilíbrio saudável entre o mundo digital e as experiências do mundo real.
Felizmente, o filme evita respostas simplistas e entrega uma reflexão surpreendentemente madura.
Tecnologia, infância e o equilíbrio entre os extremos
O maior acerto do roteiro está na forma como aborda a tecnologia. A narrativa apresenta dois extremos. De um lado, crianças que vivem praticamente conectadas o tempo inteiro, moldando seus comportamentos a partir do que veem nos dispositivos. Do outro lado, crianças completamente afastadas da tecnologia, mas que acabam encontrando dificuldades para se integrar socialmente aos colegas.
O filme não trata as telas como vilãs absolutas nem adota a ideia de que tudo era melhor antes delas, embora alguns personagens defendam essa visão. Em vez disso, a narrativa reconhece a complexidade do tema e propõe uma reflexão mais equilibrada sobre a relação das crianças com a tecnologia.
O resultado é uma discussão equilibrada sobre parentalidade e infância. A mensagem sugere que o caminho está no meio-termo, com pais atentos às necessidades dos filhos e capazes de compreender quando a tecnologia é uma ferramenta e quando ela se transforma em dependência.
Jessie finalmente assume o protagonismo

Se existe uma personagem que merecia seu momento de destaque, essa personagem era a Jessie.
Desde sua introdução em Toy Story 2, a vaqueira sempre foi uma das figuras mais complexas da franquia. Marcada pelo abandono de Emily, ela carregava traumas, inseguranças e um profundo medo de ser esquecida. Em Toy Story 5, esses elementos deixam de ser apenas parte de seu passado e se tornam fundamentais para a construção da história.
Toy Story 5 não coloca Jessie no centro da história apenas por falta de Woody, que finalmente aceitou não viver para uma criança no 4.º filme da franquia. A personagem assume naturalmente o papel de liderança da narrativa, tomando decisões, conduzindo conflitos e carregando o peso emocional da trama. Depois de anos funcionando como uma das coadjuvantes mais marcantes da franquia, ela finalmente recebe uma jornada à altura de sua importância dentro desse universo.
As escolhas do roteiro ao conectar o presente de Jessie com sua história ao lado de Emily aumentam significativamente a carga emocional do filme. Esse reencontro com o passado transforma a forma como a personagem enxerga sua própria trajetória, dando um novo significado a lembranças que por anos foram marcadas apenas pela dor.
Mais do que uma homenagem à história da franquia, Toy Story 5 entrega uma verdadeira redenção para Jessie, permitindo que ela faça as pazes com antigas feridas e encontre uma nova perspectiva sobre quem ela é.
Uma vilã que não é exatamente uma vilã

Lilypad surge como uma das antagonistas mais interessantes da franquia justamente por não ser uma antagonista tradicional. Ela representa os riscos da dependência tecnológica, mas sem transformar a tecnologia em algo inerentemente ruim. Suas ações partem de uma convicção genuína de que está ajudando Bonnie, mesmo quando suas escolhas causam problemas.
Essa motivação torna a personagem muito mais humana. Assim como Jessie, Lilypad acredita estar fazendo o melhor para a criança que ama. A diferença está na forma como cada uma entende o que significa proteger alguém.
Ao longo da história, ambas são obrigadas a confrontar seus erros e rever suas certezas. Essa construção fortalece mais uma mensagem do filme: amadurecer também significa reconhecer quando estamos errados.
Duas histórias dentro de um mesmo filme

Se existe um problema que impede Toy Story 5 de alcançar o mesmo nível dos melhores capítulos da franquia, ele está no ritmo.
A trama envolvendo Bonnie, a tecnologia e a jornada de Jessie é claramente o coração da narrativa. Porém, a participação da tropa dos Buzz Lightyear Hi-Tech cria uma segunda aventura paralela que nem sempre conversa bem com o restante da história.
Os momentos envolvendo os Buzzes são divertidos e a resolução acaba contribuindo para o conflito principal. Além disso, a cena pós-créditos é uma das mais fofas da franquia. Ainda assim, a sensação de acompanhar duas histórias diferentes dentro do mesmo longa acaba prejudicando a fluidez em alguns momentos.
Não é um problema que comprometa a experiência, mas faz com que certas partes pareçam menos coesas do que poderiam ser.
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Reflexões de uma adulta

Já é de conhecimento geral que a Pixar faz filmes infantis que vão muito além do público infantil. Suas histórias costumam ter diferentes camadas de interpretação, permitindo que crianças e adultos tenham experiências completamente distintas assistindo ao mesmo filme.
Talvez por eu ter crescido acompanhando Toy Story e esse ser o primeiro filme que vejo como adulta e de forma analítica como colunista, porém me pareceu um filme mais adulto do que seus antecessores. Não porque abandone o humor ou a aventura que marcaram a série, mas porque suas reflexões sobre tecnologia, pertencimento, mudanças e amadurecimento dialogam diretamente com preocupações que fazem parte da vida adulta.
No fim, a sensação que fica é que Toy Story 5 não está apenas falando sobre as crianças de hoje, mas também sobre os adultos responsáveis por guiá-las. E talvez seja justamente por isso que a mensagem do filme funcione tão bem.
Vale a pena assistir Toy Story 5?

Toy Story 5 talvez não possua a estrutura mais consistente da franquia, mas compensa suas falhas com uma história emocionalmente honesta e surpreendentemente atual.
Ao discutir tecnologia, infância e amadurecimento sem recorrer a respostas fáceis, o filme consegue transformar uma continuação que parecia desnecessária em uma reflexão relevante para crianças, pais e até para quem cresceu acompanhando esses personagens.
Com o protagonismo merecido de Jessie, uma antagonista cheia de nuances e uma mensagem equilibrada sobre o uso da tecnologia, Toy Story 5 prova que ainda existem histórias interessantes para contar dentro desse universo. Tudo isso mantendo o espírito divertido da franquia, nos fazendo até gargalhar em alguns momentos.