Cidade Invisivel é mesmo tudo isso? – Crítica (quase) sem spoilers

Cidade Invisivel é mesmo tudo isso? – Crítica (quase) sem spoilers

24 de fevereiro de 2021 0 Por Jackson Reis

Depois do sucesso da série 3 %, Dark e Elite na plataforma a Netflix continua investindo em produções internacionais, Cidade Invisível se junta a outras produções originais brasileira como Bom Dia, Verônica e Ninguém Tá Olhando.

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A série foca em apresentar uma história com uma forte identidade brasileira abordando o folclore, recontando as lendas em um ambiente moderno da cidade do Rio de Janeiro o que pode fazer muitas pessoas revirarem os olhos por se passar no famoso “eixo Rio-São Paulo” na verdade é um dos pontos fortes da série pois poucas localizações poderiam oferecer essa dualidade entre contemporâneo e o mítico.

A Produção

Os aspectos técnicos não deixam desejar de maneira alguma, a ambientação é extremamente imersiva, a iluminação e trabalho de câmera promovem a sensação de mistério e inquietação, os efeitos especiais enchem a tela de beleza e dinâmica, mas também dialogam com a narrativa e com os seres lendários que aparecem.

Por outro lado, quando o assunto é a trilha sonora não existe outro adjetivo além de perfeição, existem momentos maravilhosos regados a bossa, MPB e até funk carioca, mas destaco aqui a versão da Mariana Foes para Sangue Latino (Secos & Molhados). Com roteiro de Carolina Munhóz (O Escolhido) e Rafael Dracoon (Supermax), e tem como show-runner : Carlos Saldanha (Rio, Era do Gelo).

O Caso

Na tela podemos acompanhar  Eric (Marcos Pigossi) um policial ambiental que investiga um incêndio que levou a morte da sua esposa Gabriela (Julia Konrad), enquanto seus medos e angústias do passado vão se misturando com mistérios do presente.

Com episódios viciantes, a série têm diversas cenas que dão destaque a cultura brasileira, muito bem dirigidas. Porém, ainda dá a sensação que falta algum elemento importante que dê destaque a produção. Desse modo, quem anseia por uma minissérie toda fechada ou uma série que cada episódio tem um caso para ser resolvido pode acabar se decepcionando.

É claro que é bem fácil criticar uma produção brasileira quando comparamos produtos internacionais que possuem muitos recursos financeiros e técnicos. Além disso,  as produções brasileiras não têm por obrigação de se igualar (em cada mínimo aspecto) nem superar o que é feito lá fora.

O “Causo”

Enquanto a série se preocupa em humanizar todas as criaturas, mas não de uma forma que adicione complexidade a um personagem. Digo, humanizar de forma literal mesmo, todos os seres apresentados já foram humanos num passado recente. O que para alguns personagens funcionou perfeitamente, porém para outros mudou muito o aspecto da lenda. As representações das lendas ficam na responsabilidade de nomes como Alessandra Negrini (Inês/Cuca), Fábio Lago (Iberê/Curupira), Jéssica Córes (Camila/Iara) e Wesley Guimarães (Isac/Saci).

Assim, contradizendo o que roteiro citou lá no começo: que essas lendas são tão antigas quanto o próprio tempo; esse trecho em particular me deu a falsa esperança de ver “mitos da criação” indígena em tela.

Ilustração deuses da criação da mitologia tupi-guarani Tupã, Jaci, Garaci. Autor Desconhecido.  @Super Interessante

As lendas estão mais eurocentradas do que estávamos acostumados a ver através de obras como as do controverso Monteiro Lobato. O que ganha mais destaque quando notamos que no elenco não existem nativos americanos. Os únicos indígenas que apareceram não tinham nomes ou sequer falas. Enfim, até mesmo os atores negros escalados representam personagens indígenas, literalmente substituíram uma minoria étnica por outra.

Jaci Jaterê seria a possível origem da lenda do Saci. Autor Desconhecido.

O Mito

Apesar de comparada a séries internacionais como American Gods e Supernatural, a série encanta pela forma como envolve e encanta. Enfim, talvez essa seja a proposta, pode-se dizer que a série abre portas para pessoas fora do Brasil acompanharem as lendas e “causos” comuns daqui. Além de elevar o nosso potencial em produções audiovisuais.

Não sabemos nada sobre uma segunda temporada ainda, mas seria ótimo para repensar as questões de representatividade. Principalmente para ir além desse viés da “história contada pelo colonizador”. Porém, mesmo que isso não chegue a acontecer ainda teremos uma temporada cheia de mistérios e personagens memoráveis.

E aí, já assistiu Cidade Invisível? Se já comenta qual sua parte favorita da série e se não comentar a Cuca vem pegar.

Cuca (Alessandra Negrini) Cidade Invisível @Netflix.