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 Dia D, o novo filme do Spielberg, é realmente tudo isso?
Emily Blunt no filme Dia D (Disclosure Day). Créditos: Niko Tavernise | @Universal Pictures/Divulgação.
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Dia D, o novo filme do Spielberg, é realmente tudo isso?

11 de junho de 2026 0 Comment

Se você esteve na internet nas últimas semanas, deve ter acompanhado o surto coletivo relacionado à vida alienígena. Das divulgações do governo Trump ao cara no Paraná e as revelações de um ex-agente da CIA, não se falava em outra coisa e é em meio a esse contexto ideal que Dia D, o novo filme de Spielberg, chega às telonas.

Seja isso uma coincidência ou uma estratégia de marketing, o fato é que todo esse frisson ajudou a despertar o interesse do público pelo longa. E isso não é pouca coisa. Pois, embora Spielberg seja um diretor incrível e que, por si só, já chame a atenção, Dia D não faz parte de uma franquia conhecida. Sem todo esse debate sobre extraterrestres, talvez muita gente sequer soubesse da estreia do filme.

Sendo assim, é uma história que tem apelo para o público e que chega no timing certo. O que poderia dar errado? Acredite: mais coisas do que você imagina.

Não me entendam mal, Dia D tem uma premissa incrível

Trailer de Dia D (Disclosure Day) | @Universal Pictures/Divulgação.

Como a sociedade lidaria com saber que não estamos sozinhos no universo? Se fosse confirmado que existe vida alienígena, o que isso faria com a gente como seres humanos? Enfim, nossas crenças, modos de vida mudariam? Ainda mais considerando a época das IAs e fake news, será que as pessoas acreditariam mesmo se a ciência provasse isso?

É algo que acredito que nem eu, nem ninguém conseguiria responder com certeza, então a ideia de trazer isso para a tela tinha tanto potencial, que em muitos aspectos eu já esperava gostar de Dia D. Isso, somado à direção do Spielberg e à presença da Emily Blunt no elenco — uma atriz incrível, que não recebe toda a atenção devida, na minha opinião — parecia uma receita perfeita para um filme emocional, forte e que me faria sair do cinema impactada.

Sinto dizer que saí impactada, mas não no bom sentido da coisa

Emily Blunt no filme Dia D (Disclosure Day). Créditos: Niko Tavernise | @Universal Pictures/Divulgação.

Vi muitas pessoas elogiando o novo trabalho do Spielberg e não, elas não estão mentindo. O filme tem seus méritos. Como todas as obras do diretor, vemos um longa-metragem impecável tecnicamente e muito bem dirigido. Emily Blunt está incrível, temos cenas de ação fantásticas, além de uma trilha sonora e fotografia impecáveis, mas a produção peca naquilo que é essencial.

Os melhores filmes do Spielberg para mim são os que ele volta a essa essência: E.T. — O Extraterrestre, Os Fabelmans, Tubarão, A Lista de Schindler, filmes sobre pessoas. Personagens que nos fazem acompanhar aquela história. Mesmo em Tubarão, o foco nunca foi no animal e sim no que sua existência como ameaça faz às pessoas à sua volta.

É isso que Dia D propõe na sua sinopse, mas não é bem isso que entrega. Ele se perde ao explorar demais a busca implacável de quem escondeu a verdade da sociedade, de manter isso um segredo ao invés de mostrar como a vida das pessoas comuns mudaria com essa notícia.

A própria revelação leva tanto tempo para acontecer que mal vemos a reação das pessoas à novidade. Se a proposta era ver a reação das pessoas, por que ela não acontece mais cedo da narrativa? É uma escolha que nunca vou entender. Entendo que existia o desejo de manter em segredo parte da história da Margareth, mas isso poderia ter sido feito ainda explorando mais as consequências dessa descoberta.

Enfim, a sensação que fica é que o filme promete muito, mas nunca chega lá. De questionamentos se a vida alienígena geraria uma crise de fé ao endeusamento de figuras humanas relacionadas aos E.T.s, os pontos com mais força vêm em doses tão tímidas, que deixam um sabor amargo.

Dia D tinha potencial de ser muito mais do que é

Emily Blunt e Josh O’Connor no filme Dia D (Disclosure Day). @Universal Pictures/Divulgação.

O filme já começa tentando entregar uma atmosfera de desespero. Vemos Daniel Kellner (Josh O’Connor) e sua namorada Jane (Eve Hewson) fugindo de uma agência, disposta a tudo para proteger o mundo da verdade sobre os alienígenas, mas como eles não são apresentados de forma cativante, toda essa trama importantíssima soa mais como uma sequência de acontecimentos até que a narrativa finalmente chega ao que tem de mais interessante: a história de Margareth Fairchild (Emily Blunt), uma repórter de clima do Kansas.

Dia D então se desenrola a partir de três tramas: a de Daniel, a da agência e a de Margareth, que levam tempo demais para se cruzar. Essa falta de unidade atrapalha muito o nosso envolvimento com os personagens. Especialmente porque duas dessas histórias não têm nem metade do ritmo e carisma que a história da personagem da Emily Blunt tem.

Seja por sua relação desconhecida com os aliens, ou sua insatisfação com a sua vida tão universal e relacionável, a personagem é a melhor parte de todo o roteiro de David Koepp e Steven Spielberg. Ela consegue trazer um frescor e humor no meio do caos, que funciona muito bem e remete um pouco à personagem da atriz em O Diabo Veste Prada.

A protagonista agrada tanto que me fez questionar. Será que o filme seria melhor se fosse centrado completamente na personagem da Emily Blunt? Digo isso, pois desde a sua primeira cena percebemos que ela tem algo em comum com todos nós, ela sente que não pertence de verdade. Esse sentimento tem uma força enorme, mas acaba diluído para dar espaço a outras tramas.

Um enredo complexo que poderia ser mais simples

Dia D (Disclosure Day). @Universal Pictures/Divulgação.

Talvez o maior erro do filme seja tentar ser coisas demais ao mesmo tempo: um thriller político, um suspense psicológico e um drama questionador. Não é de se espantar que o resultado seja um longa superficial, que poderia proporcionar uma experiência muito mais envolvente se tivesse escolhido focar em um único gênero.

A necessidade de equilibrar as cenas de perseguição com as de reflexões filosóficas faz com que nenhuma das duas alcance seu ápice. As grandes indagações humanas que o filme levanta, por exemplo, se a existência alienígena poderia questionar a fé da humanidade em Deus, poderiam sustentar a narrativa por conta própria. No entanto, elas aparecem em diálogos excessivamente expositivos e quase soltos do restante do enredo, o que gera estranhamento e faz com que a crítica perca o efeito.

Porém, esse não é o único problema da trama.

Quando tudo é possível, nada convence

Dia D (Disclosure Day). @Universal Pictures/Divulgação.

O pior de tudo é que, apesar do filme se explicar muito, ele também peca na construção desse universo. Seja Harry Potter, Star Wars ou Jurassic Park, é muito importante que uma obra de fantasia ou ficção científica estabeleça regras reais e acreditáveis de funcionamento desse mundo.

Em Dia D, tudo pode no alien que te fortalece. De ler mentes a invisibilidade, tudo é possível dentro desse universo, o que simplesmente não é acreditável e, mais do que isso, soa preguiçoso. Como vou tirar o personagem dessa situação? Ah, e se ele puder fazer isso, tudo se resolve.

E qual é o problema disso? Parece mais um artifício narrativo para facilitar as coisas do que decisões realmente construídas e estruturadas para fazer sentido ao longo da trama.

Mas, qual o veredito: vale a pena ver?

Josh O’Connor no filme Dia D (Disclosure Day). @Universal Pictures/Divulgação.

É como sempre falo por aqui, acho que sempre vale a pena ver para tirar as suas próprias conclusões, mas eu iria com expectativas baixas. Não acho que todos vão detestar o filme. Se você é daqueles que ama um filme cheio de acontecimentos e com um foco maior em enredo, como os filmes da franquia Missão Impossível, é possível que você goste bastante, mas comigo simplesmente não funcionou.

Amei algumas das críticas sutis e referências incluídas no filme, como ele começar logo numa luta livre, algo tão humano que diz tanto sobre a gente, ou a decisão de grande parte da história acontecer no Kansas, quase como se dissesse: We’re not in Kansas anymore! (Trad.: Não estamos mais no Kansas) numa referência à ‘descoberta’ da Dorothy do fantástico mundo de Oz.

São elementos muito interessantes, mas que acabam perdendo força pela falta de unidade, ritmo e desenvolvimento de personagens. E talvez esse seja o aspecto mais frustrante de Dia D: não é um filme com ideias ou personagens ruins, mas um projeto que não consegue explorar todo o potencial que tem.

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      Tags: Dia D Disclosure Day Filmes Spielberg steven spielberg
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      Leticia Linhares

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