
Crítica O Diabo Veste Prada 2 | “Você é Icônica”
É muito louco estar escrevendo essa crítica, acho que a Letícia de 2006 que se apaixonou pelo primeiro filme alugado numa locadora nunca ia acreditar no mundo que estaria vivendo agora. E acho que essa é uma das razões pelas quais O Diabo Veste Prada 2 faz tanto sentido.
Quando anunciaram, eu tive minhas dúvidas, acho que todo mundo. Apesar da moda do momento de lucrar com nostalgia, revisitar obras já consagradas é sempre complicado. As perguntas que vieram na minha cabeça foram: será que precisa mesmo de uma continuação? Será que vão conseguir trazer a essência dos personagens com tudo que mudou no mundo?
O tom e a história me preocupavam, e, se você também estava receoso, já digo logo: eles conseguiram. Vale MUITO a pena ver! E digo isso tanto para você que é fã quanto para a nova geração de mulheres que talvez nunca tenha visto o primeiro.
Embora tenha seus problemas, O Diabo Veste Prada 2 é um filme divertido e inspirador, que me fez sair do cinema ainda mais certa das minhas escolhas e mais disposta a correr atrás dos sonhos que quero muito alcançar, mas ainda duvido que posso às vezs. (Quem nunca, né?)
Dito tudo isso, é hora de entrar na parte técnica e explicar para você tudo que a continuação acerta e peca, na minha visão. Para quem viu minha nota de 3,5 no Instagram, calma, que vocês vão entender, mas saibam que não muda o fato de que esse já virou um filme super queridinho pra mim.
Qual é o enredo?
Se você é daqueles que não acompanhou nada sobre o filme, o que você precisa saber é que nele acompanhamos Miranda Priestly (Meryl Streep) enfrentando a crise do mundo editorial e precisando da ajuda de Andy (Anne Hathaway), vinte anos após o original. Uma delícia, né? A sinopse me chamou atenção de cara justamente por brincar um pouco com a dinâmica do primeiro filme.
E, ainda que o filme prefira ficar no seguro e não mude tanto assim a lógica de funcionamento, a história já começa com uma premissa interessante, que funciona muito bem, garantindo muitos momentos engraçados. Mas vai além disso, com um tema atual sobre a desvalorização do universo jornalístico, o longa chega no momento certo, trazendo junto do entretenimento, reflexões e o que é mais fascinante, uma história que faz sentido hoje.
Dentro desse contexto, somos apresentados a personagens mais velhos, porém ainda coerentes e com o mesmo brilho que conhecemos no original. Isso acontece tanto pela performance do elenco quanto pelo texto, que, no geral, preserva a acidez e as nuances dos personagens.
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Mas o filme é perfeito, adm?

Apesar de cometer alguns deslizes, no geral, porém, a balança pesa muito mais para o lado positivo da experiência. É lindo e simbólico ver uma Andy bem-sucedida, mais segura de si e que, apesar de se inspirar muito na Miranda, faz questão de ser uma profissional completamente diferente.
Contudo, não dá para negar que o filme tem suas falhas (estranho seria se não tivesse). Entre elas, estão algumas facilitações de roteiro. Nada que tenha me feito gostar menos da experiência, mas certos acontecimentos parecem existir só porque a trama precisava chegar a determinado ponto ou passar determinada mensagem.
Em um caso, inclusive, o que acontece chega a soar fora do personagem. Sem falar que algumas cenas parecem mais pensadas para agradar fãs e render cortes virais nas redes sociais do que para funcionar organicamente na história. Uma minoria, diga-se de passagem, mas que não tinha como não mencionar.
Emily merecia mais

Agora chegamos ao que, para mim, é um dos maiores problemas do filme: alguns enredos poderiam ter sido melhor trabalhados, especialmente o relacionamento da Andy e o arco da Emily (Emily Blunt). No caso do primeiro, tenho minhas dúvidas sobre o casting. Falta química, e toda a dinâmica acaba parecendo meio solta. Embora eu entenda a intenção por trás dessa escolha, confesso que preferia ver um aprofundamento maior do plot da Emily, por exemplo.
Diferente do relacionamento no primeiro filme, que servia para mostrar como a Andy foi sendo consumida pelo trabalho, aqui ele parece mais uma tentativa de dar à personagem um final feliz em todas as frentes, o que acaba soando forçado. Nem toda mulher bem-sucedida precisa ou quer um relacionamento amoroso.
E, considerando o potencial do arco da Emily, eu diria que essa trama acaba sendo dispensável. Não me entendam mal: temos momentos incríveis com a personagem, e uma cena em especial com a Andy é emocionante. É o tipo de coisa que toda mulher deveria ouvir de uma amiga. Ainda assim, senti falta de uma jornada em que ela mesma percebesse o próprio valor, em vez de apenas escutar isso de outra pessoa.
Não sei se talvez isso estivesse nas cenas cortadas, mas eu daria tudo para ver a Emily percebendo por si mesma que é muito mais do que aparência ou relacionamentos. Queria que ela tivesse a chance não de se provar para a antiga chefe, mas de mostrar que a visão da editora sobre as pessoas nem sempre está certa. Miranda não é uma deusa e, embora o filme trabalhe isso em alguns momentos, sinto que poderia ter ido mais fundo.
Será que não dava para responsabilizar mais a Miranda?

Em especial, senti falta de ver a Miranda sendo mais confrontada pelas consequências dos próprios comportamentos e o desenrolar com a Emily seria uma boa oportunidade para isso. A forma como as duas encerram sua relação me incomodou bastante e é uma das razões para o filme não ganhar quatro estrelas no meu conceito.
Mas antes que você fique preocupado, o filme aborda sim as questões envolvendo a toxicidade da Miranda, sem tentar forçar uma redenção para a personagem. Inclusive, faz isso com bastante humor, o que funciona muito bem. Miranda claramente não é mais a mesma de 2006, e isso é ótimo, porém ainda sinto falta de consequências mais profundas para algumas atitudes dela.
Observação aleatória, porque sim: por favor, façam um spin-off da Emily. Essa diva merece. Fica aqui meu pedido, vai que alguém com poder encontra esse post. 🤭
Tá, mas se tem tanta coisa ruim, por que você amou?

A primeira é algo simples, mas também a maior verdade sobre esse filme: ele é divertido, engraçado e realmente te envolve na história. Eu ri, chorei e saí do cinema feliz por passar mais um tempo com esses personagens. Me senti quase abraçada ao ver que eles também envelheceram, mudaram em parte, mas continuam carregando aquilo que os tornava especiais, assim como acontece com cada um de nós.
Também preciso deixar um parabéns especial para a roteirista Aline Brosh McKenna. Embora o roteiro tenha alguns deslizes, ela conseguiu manter a identidade dos personagens, e isso não é nada fácil de reproduzir tantos anos depois. As piadas funcionam, o filme é gostoso de assistir e eu já saí com vontade de rever.
A trilha sonora também encaixa perfeitamente tanto nesse filme quanto no original. Somada às referências, que aparecem na medida certa, seja em momentos importantes ou como pequenos easter eggs, deixam a experiência ainda mais especial.
Outro ponto que amei foi ver o filme trazendo essas mudanças do mundo para o holofote novamente. Vivendo tudo isso no dia a dia, é muito fácil esquecer o quanto as coisas mudaram em vinte anos, então parar para refletir sobre isso foi bastante encorajador. Afinal, quantas vezes nós já precisamos nos reinventar? E, ainda assim, sempre damos um jeito!
Saí do cinema inspirada a me jogar nas oportunidades, confiar mais nas minhas próprias habilidades e também no networking, um ponto que adorei ver presente na história, porque poucas coisas são mais reais do que isso. Muitas oportunidades nascem de encontros, às vezes completamente aleatórios, mas que a gente cultiva ao longo do caminho. Então fica a dica: seja uma pessoa legal, construa laços. Isso pode te abrir tantas portas quanto ser bom no que você faz.
Dito tudo isso, vou encerrar por aqui antes que essa crítica nunca termine, porque eu poderia passar horas falando sobre esse filme. E você, já assistiu? Também saiu inspirado do cinema? Me conta aqui embaixo.
Outra observação aleatória, porque sim: preciso destacar que usaram a mesma redação de The Bold Type e claramente se inspiraram no Kendall de Succession para criar o sucessor. Amei com todas as minhas forças e, se você é fã de qualquer uma dessas séries, provavelmente vai amar isso também.