
Resenha | Duelo de Damas da Marina Basso
Algumas histórias começam pelo começo, seguem em frente e conduzem o leitor até o fim. Outras preferem voltar no tempo, mudar de perspectiva e apresentar novas peças antes de revelar como tudo realmente se encaixa. Duelo de Damas está no segundo grupo.
Escrito por Marina Basso e publicado pela Hoo Editora, selo da Universo dos Livros, o romance apresenta uma história sáfica entre duas enxadristas. Ada e Teresa se reencontram em diferentes momentos da vida, durante três campeonatos de xadrez em Florianópolis.
Mais do que uma história sobre esses encontros, Duelo de Damas constrói uma narrativa sobre o tempo, as escolhas e a maneira como diferentes pessoas podem enxergar um mesmo acontecimento.
Protagonistas e o impacto na vida uma da outra
Um dos pontos centrais de Duelo de Damas está na forma como conhecemos Ada e Teresa em diferentes momentos de suas vidas. Na década de 1970, Ada é uma menina silenciada. Ela vive uma relação familiar conturbada e com dificuldade para expressar o que pensa e sente. Teresa, por outro lado, é mais velha, ousada e aberta, características que despertam a admiração de Ada.
Para a menina, Teresa representa uma liberdade e confiança que ela ainda não consegue experimentar.
Anos depois, porém, esse contraste ganha novos contornos. Teresa tornou-se profundamente devota à religião e passou a enxergar a homossexualidade como pecado, enquanto Ada integrou-se ao movimento punk e começou a beber para aplacar seus sentimentos.
Essas mudanças dão novas camadas às duas personagens. A mulher que Ada admirava por sua liberdade agora enxerga o mundo a partir de uma perspectiva muito diferente. Ao mesmo tempo, ambas carregam as marcas das escolhas e experiências que viveram ao longo dos anos.
A autora também desenvolve Ada e Teresa de forma individual. Seus traumas, relações e escolhas aparecem aos poucos e ajudam a explicar quem elas se tornam. Assim, a relação entre as duas não existe isoladamente. Ela também é resultado de tudo o que cada uma viveu. Assim, os encontros entre Ada e Teresa não colocam apenas duas mulheres frente a frente, mas também diferentes versões de quem elas foram.
Narrativa não linear: uma história que se revela aos poucos
A história transita entre 1978, 1985 e 1992, utilizando diferentes pontos de vista e retornando a acontecimentos já apresentados. Em vez de acompanhar uma sequência cronológica tradicional, o leitor recebe as informações aos poucos, em uma ordem cuidadosamente construída.
A estrutura também cria uma relação interessante com o próprio leitor: é preciso estar disposto a rever interpretações. A cada novo ponto de vista, aquilo que parecia definitivo pode ser colocado novamente em perspectiva.
Mas isso, por si só, é apenas um recurso narrativo. Quando não é bem utilizado, pode criar confusão e dúvidas no leitor. Em Duelo de Damas, porém, a autora consegue usá-lo de forma tão eficiente que ele se torna um dos pontos mais interessantes da obra.
A narrativa está sempre explicando algo, mas, ao mesmo tempo, abrindo espaço para uma nova questão. Dessa forma, aquilo que poderia gerar confusão se transforma em uma fonte de curiosidade, fazendo com que o leitor queira continuar avançando para descobrir o que está por trás de cada acontecimento.
Por isso, Duelo de Damas é, em grande parte, uma história sobre como diferentes pessoas podem viver o mesmo acontecimento de maneiras completamente distintas.
Por que vale a pena ler Duelo de Damas?
Duelo de Damas é uma leitura relativamente curta, mas que consegue desenvolver suas personagens e sua história sem abrir mão da complexidade.
A narrativa não linear foge do caminho mais óbvio e mantém a curiosidade do leitor ao longo dos capítulos, enquanto Ada e Teresa ganham novas camadas conforme suas histórias são reveladas.
É uma história sobre encontros, mudanças e diferentes formas de enxergar os mesmos acontecimentos — tudo isso em uma leitura envolvente e que sabe guardar suas respostas até o momento certo.
Se você procura um romance com personagens bem desenvolvidas e uma narrativa que brinca com as expectativas do leitor, Duelo de Damas pode ser uma boa escolha.