
Por que a Shay morreu em Chicago Fire? | #DesabafoDeFã
Quem acompanha nossas postagens do Instagram sabe que minha série do momento é Chicago Fire. Um pouco atrasada? Com certeza. Há tempos falo que vou dar uma chance e esse ano resolvi ver o que esse seriado tem de tão especial. Desde junho, estou numa maratona intensa e, claro, como vocês lá em 2014 viveram, eu também sofri horrores quando a Shay morreu.
Nossa paramédica favorita do 61, ela sempre foi aquela personagem que fazia a gente rir, chorar e que, até quando fazia algo questionável, a gente não conseguia resistir à tentação de passar um pano. Ela se foi há mais de dez anos, mas o sentimento da maioria dos fãs segue o mesmo: Shay ainda faz falta.
Esse não é um feito pequeno; basta olhar para outros personagens que deixaram a franquia One Chicago. As saídas da Gabby ou da Erin em Chicago P.D., por exemplo, não causaram nem de perto os mesmos efeitos. Então, eu fiquei me perguntando depois de assistir ao fatídico episódio: por quê? Por que mataram logo uma personagem tão querida pelos fãs?
Logo de cara, pensei: deve ter acontecido alguma coisa nos bastidores. Não é possível que eles tenham tomado essa decisão só pra causar impacto. Não faz sentido. E quem acompanha seriados há muito tempo sabe que atores saem de séries o tempo inteiro; às vezes por decisão deles, às vezes por escolhas criativas, ou por problemas nos bastidores… os motivos são inúmeros. A grande questão era descobrir qual desses era a verdade aqui.
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Por que a Shay morreu em Chicago Fire?

Na minha primeira tentativa de entender o que rolou, encontrei duas hipóteses. A primeira era que a Lauren German teria saído porque conseguiu um trabalho melhor em Lucifer; já a segunda era que a saída dela tinha sido realmente uma decisão criativa.
Apesar de eu ter vários pontos de crítica a essa escolha, a verdade é que sim, a morte da Shay, ao que tudo indica, não teve nada a ver com Lucifer ou com uma decisão pessoal da atriz. Ela saiu porque a equipe criativa da série avaliou que eles precisavam matar alguém de quem o público gostasse muito para causar impacto.
Vamos a uma linha do tempo pra quem ainda está na dúvida. O primeiro episódio da terceira temporada, que confirma a morte dela, foi exibido em 23 de setembro de 2014, mas a escolha definitivamente veio antes. Minha estimativa é que deve ter acontecido entre abril e agosto do mesmo ano, ou até antes disso, se eles tiverem fechado uma decisão antes do fim da segunda temporada — exibida até meados de maio.
Mesmo que ela tenha recebido a notícia nas filmagens do primeiro episódio da terceira temporada, ainda seria muito cedo para ela estar em negociação para Lucifer, que só estreou em janeiro de 2016. Segundo a Lucifer Wiki, Lauren German foi confirmada em Lucifer no dia 10 de março de 2015. O protagonista, por sua vez, teve seu nome anunciado em fevereiro do mesmo ano, logo depois da Fox anunciar oficialmente que gravaria um episódio piloto. Considerando que o período tradicional de audições costuma ser um pouco antes disso, muito provavelmente as audições para Lucifer começaram entre o final de 2014 e janeiro de 2015.
Bem depois da Lauren deixar Chicago Fire.
Mas talvez você esteja pensando que nada disso prova que foi uma decisão criativa; realmente não, mas as entrevistas com o showrunner sim.
Em entrevista para o veículo de comunicação TVLINE, Matthew Olmstead, o showrunner de Chicago Fire na época, declarou que escolheram a Shay porque eles sabiam que a morte dela causaria o impacto de que eles precisavam. Ele comentou também que eles avaliaram os prós e os contras de vários personagens e que a decisão final veio depois de muita avaliação e simplesmente porque a morte dela seria mais interessante narrativamente por atingir mais pessoas.
“Você precisa avaliar os prós e contras de cada personagem. Alguns descartamos em dois segundos, sabendo que não tinha como acontecer. Outros nós discutimos, mas avaliamos todos. Voltamos a Shay porque era a que afetava o maior número de pessoas.”
Tradução livre da entrevista de Matthew Olmstead para o veículo de comunicação TVLINE.
Tá, mas será que foi só isso?

Agora entram as especulações e os incômodos de muitos fãs. Apesar de na mesma entrevista com a TVLINE, o showrunner tenha feito questão de reforçar o quão bem a Lauren German lidou com a notícia, mencionando que ela teria até brincado que não sentiria falta dos invernos de Chicago. Não é estranho que, mesmo doze anos depois de tudo, haja tão poucas declarações dela sobre sua saída? Nem mesmo uma entrevista dela mesma falando sobre essa suposta piada.
A única declaração oficial é a despedida que a atriz postou no Twitter, um pouco depois do último episódio da Shay ir ao ar, em 2014:
“Olá, pessoas lindas! Quero agradecer à NBC, ao Dick Wolf e a toda a equipe por me permitirem fazer parte de uma experiência tão incrível. Preciso dizer que nunca fiz parte de um elenco e uma equipe tão talentosa, especial, sincera, divertida e carinhosa quanto o pessoal de Chicago Fire. A série me deu tantos presentes incríveis. Serei eternamente grata. Quero, acima de tudo, agradecer aos fãs pelo apoio e carinho ao longo desta jornada. Vocês são maravilhosos. Foi uma grande honra interpretar a Shay. Eu adoro ela: seu espírito, suas falhas, sua honestidade. E, acima de tudo, ela me proporcionou as interações mais genuínas e significativas com todos vocês — os fãs — e meu coração transborda de gratidão. Obrigada, obrigada! Todo o meu amor a vocês.”
Tradução livre do tweet. Acessado via Matt & Jess TV Commentary, pois o post original não está mais disponível.
Mais à frente, em 2016, ela até comentou em uma entrevista ao Chicago Sun-Times sobre sentir saudades do elenco e ainda ter contato com eles, mas nada especificamente sobre qual foi sua reação à morte da sua personagem ou à sua opinião. Até 2017, temos postagens no Instagram dela com parte do elenco de Chicago Fire (Taylor Kinney, Monica Raymund, Christian Stolte…), o que mostra que eles continuaram próximos após o fim da sua participação. Porém, fora esses registros, não encontrei entrevistas dela comentando ou dando uma opinião sobre o assunto.
Talvez ela só não goste de falar sobre isso, é verdade, mas é estranho essas declarações não existirem, já que é improvável que nenhum repórter tenha perguntado. Considerando a popularidade da personagem na época — Shay foi indicada à categoria de personagem de quem mais vamos sentir falta nos People’s Choice Awards de 2015 — faz a gente pensar: será que ela realmente só não gosta de falar no assunto? Ou não comentou nada porque não pode ou porque ficou com medo de dizer algo e se queimar?
Para isso, infelizmente não temos respostas. Quem sabe um dia eu não a conheça e tire essa dúvida pra contar pra vocês. De todo modo, é o suficiente para a gente questionar o quão confortável realmente foi essa saída.
Por que essa morte revolta tanto os fãs?
Até hoje, anos depois, Shay ainda é assunto frequente entre os fãs de One Chicago. Nas redes sociais e em posts no Reddit vemos discussões sobre sua morte e sobre a importância da personagem. Neles, vemos a marca que ela deixou, mas também os questionamentos que ficaram com essa escolha.
#1: O Desenvolvimento

O primeiro ponto está diretamente relacionado com o desenvolvimento. Apesar da Shay ser uma personagem muito querida, ela não teve a melhor das construções narrativas. Especialmente na segunda temporada, onde tivemos a oportunidade de ver um lado mais emocional dela, somos apresentados a uma depressão que parece ser construída só para ser solucionada facilmente alguns episódios depois. A mesma coisa vale para a decisão dela de ser mãe, que depois é esquecida quando as coisas não saem como o planejado com o Severide.
Chicago Fire precisava ter tido a coragem de sustentar as consequências dos enredos que estava desenvolvendo em vez de andar para trás. Até hoje tenho minhas dúvidas se o plot da Rebecca Jones não era originalmente da Shay; faria sentido pela linha narrativa que estavam explorando pra ela nessa temporada. E não estou dizendo que queria que isso tivesse acontecido com a Shay, só que se tivessem seguido esse caminho, o impacto, que era o que eles queriam, seria mais eficiente por ser consequência de um bom desenvolvimento.
Talvez eles tenham ficado com medo das consequências de uma trama tão pesada para uma personagem tão querida e influente com o público, ou tenham sido barrados por alguém do canal… Tudo isso pode ter acontecido, porém não muda o resultado. O sentimento geral dos fãs foi de decepção. Não só por perder uma personagem querida, mas por ver a história tomar um rumo incoerente com a construção narrativa até aquele momento.
#2: Um é acaso, três é um padrão

Vamos ao ponto dois, algo que eu venho ruminando há muito tempo. Por que, no meio de tantos personagens masculinos, matar logo uma personagem feminina? A única personagem LGBT e uma das favoritas do público na época. Se ela fosse a primeira ou segunda personagem a morrer, não caberia a crítica; o que incomoda é o padrão que se estabelece com a morte dela.
Shay é a terceira mulher a morrer em uma série com pouquíssimas personagens femininas. Primeiro morre a Allie, namorada do Casey, depois a bombeira Rebecca Jones, que eu mencionei aqui em cima, e então chega a vez dela. Não é esquisito que uma série com tantos personagens masculinos faça essa escolha três vezes em só três temporadas?
Dá pra entender que eles queriam chocar e mostrar que um trabalho na linha de frente vem com consequências, mas quem você escolhe matar, especialmente quando um padrão é estabelecido com três mortes, diz muito sobre as prioridades e visão de mundo que uma série defende. Especialmente porque existiam outros personagens que poderiam morrer e causar, se não o mesmo impacto, algo similar, que permitiria desenvolver os personagens como eles fizeram depois da morte dela.
Alguma morte poderia impactar mais que a do Boden? A perda do chefe seria algo interessante de se ver e que atingiria a todos. O mister good guy Casey também atingiria muitos personagens e impactaria os fãs. Severide, Mills, Herrmann, a lista continua. Amo todos, tá? Não é um “mata esse aqui que eu não gosto”, mas um “olha quantos personagens masculinos eram possibilidades”. Por que tinha que ser ela? Será que ela ser mulher e lésbica teve peso nessa decisão? São perguntas inevitáveis quando a gente sabe que ela era a única personagem gay e uma das poucas mulheres na série.
#3: A sexualidade da Shay influenciou a sua morte em Chicago Fire?

Não seria a primeira vez que um personagem LGBT é morto para facilitar uma trama. Isso tem até nome na comunidade LGBTQIA+: Bury Your Gays trope. Numa busca rápida na internet, você vai encontrar vários exemplos: Lexa (The 100), Tara (Buffy: A Caça Vampiros), entre outros.
Não sei se a sexualidade teve um papel nessa escolha. Não é possível afirmar sem ter estado na sala de roteiro, especialmente porque nem sempre essas decisões são tomadas de forma consciente, mas que a morte dela traz esse peso extra, traz. Há quem questione no Reddit, inclusive, se a decisão não veio para afastar o público que a personagem dela trouxe e aproximar mais a audiência que eles realmente queriam atrair: o público masculino mais conservador. É uma possibilidade, algo que explicaria essa decisão.
Outro ponto que gerou crítica e que argumenta a favor desse contexto foi a escolha da personagem para substituí-la — e falo isso amando a Brett com todo o meu coração — uma paramédica loira parecida com ela fisicamente, mas dez anos mais jovem e hétero.
Inclusive, alguns fãs comentam que a saída da Shay pode ter sido influenciada por questões práticas relacionadas à sexualidade dela. Em posts do Reddit, fãs teorizaram que a impossibilidade de desenvolver um romance dela com algum dos bombeiros pode ter pesado na decisão final, o que faz sentido se considerarmos os relacionamentos desenvolvidos mais à frente na série.
Ainda que não torne a decisão mais palatável, se a sexualidade dela era uma característica importante para a popularidade da série, como sabemos que era, também deveria ter sido levada em consideração antes de uma decisão final como essa.
O que o showrunner tem a dizer sobre essas críticas?
A TVLINE questionou o showrunner sobre isso, se o fato de ela ser uma personagem feminina e lésbica foi algo que eles levaram em consideração na hora de chegar a uma decisão. Matthew Olmstead respondeu o seguinte:
“Não, não havia uma agenda oculta de um lado ou de outro. Todos os personagens foram avaliados em pé de igualdade; não houve nada do tipo: “Vamos evitar isso por tal motivo, ou aquilo por outro motivo”. Como contadores de histórias, às vezes a gente precisa deixar o sentimentalismo de lado.”
Tradução livre da entrevista de Matthew Olmstead para o veículo de comunicação TVLINE.
E, apesar de dar pra entender parte do que ele diz, pensar nas consequências de uma escolha narrativa para além da trama também é parte do trabalho de um bom contador de histórias. Nenhuma série existe no vácuo. Por isso, entender a mensagem que você passa quando escolhe determinado caminho deveria sim ser um elemento essencial desse processo de decisão.
Isso não significa que seja preciso evitar certas escolhas ou, em termos bem diretos, que eles não pudessem ter matado a Shay em Chicago Fire, mas que avaliar personagens em pé de igualdade nem sempre quer dizer olhá-los com o mesmo peso. Como na sociedade, a equidade deve ter influência aqui para que decisões narrativas sejam bem informadas e sustentadas tanto no seu projeto quanto no mundo.
Nada disso significa abandonar visões estratégicas ou esquecer que essas produções precisam se vender, mas lembrar que elas também são arte e que ainda vão influenciar a vida das pessoas. Sendo assim, será que não era possível fazer uma escolha que pudesse gerar o impacto narrativo necessário, sem todo esse desconforto? Eu acredito que sim, mas talvez a equipe criativa da série discorde.
É possível que eles realmente tenham pensado que matá-la era a única opção; infelizmente, nunca vamos saber como poderia ter sido se eles tivessem explorado outras possibilidades. Quem sabe num próximo projeto.